- (...) Gaston, toque o Convite à valsa.
- Para quê?
- Primeiro, para me dar prazer, e depois porque não sou capaz de o tocar sózinha.
- Onde é que se atrapalha?
- Na terceira parte, na passagem em sustenido.
A Dama das Camélias
Alexandre Dumas (Filho)
A PEDIDO DE LUÍS CASTRO,
FOI RETIRADA A IMAGEM QUE AQUI SE ENCONTRAVA: Um saco de papel com a imagem de duas caras de meninas quase renascentistas, em tons de dourado, olhando fixamente a objectiva enquanto se preparam para fazerem bolinhas de sabão com palhinha e tigela cheia de água ensabonada, onde, a um canto, está presente uma folha de sala de um espectáculo, em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.
gi cañamero/ as meninas
informação adicional:
o saco é daqueles objectos que se guardam na despensa, junto a outros sacos de papel, à espera do dia em que sejam retirados para a luz - nem que seja a caminho do papelão. Recordo que estaria nesse limbo desde o Natal passado - altura em que me foi oferecido, embrulhando, se não me engano, uma garrafa de... de quê?... mas de quê?... uísque?... vodka?... vinho alentejano?... licor de poejo?... (imperdoável, esta falha)
Regresso de madrugada após a estreia de dois espectáculos de Luís Castro.
Luís Castro cria o espaço Karnart na Rua da Escola Veterinária - por cedência Faculdade de Veterinária, que assim permite a dinamização - artística, social, de intervenção política - de um espaço desactivado, numa zona central de Lisboa.
Um exemplo que outros proprietários poderiam seguir, um pouco por todo o país.
Primeiro, um espectáculo com poesia portuguesa, satírica, erótica e obscena: Satirotic.
Luís Castro tem feito da divulgação/acção contra a repressão da liberdade sexual e contra os estereótipos do socialmente aceite e do politicamente correcto uma causa aberta, traduzida nas suas obras - sejam perfinst (performance/instalação) com a intervenção plástica do seu compagnon de route Vel Z - da qual Beja recordará Pecado, onde tive a oportunidade de participar e de trazer a Beja, numa co-produção com o arte pública - sejam puro teatro da palavra - como em L´homosexuel ou la difficulté de se exprimer, agora, também, estreado.
O encenador assume aqui, clara e textualmente, como principais alvos, a Igreja Católica e aquilo que denomina como o lobby fascista.
Revisitar, nas Letras, uma face geralmente oculta, em propostas dramáticas através dos actores/diseurs - André Amálio, Luís Caboco, Luís Castro e Ricardo Cruz - com textos de Bocage, António Botto, Almada Negreiros, Cesariny, entre outros.
Entre diversas cenas feitas quadros - porque contextualizadas e dependentes da arquitectura do lugar - onde não falta um cante alentejano, com letra - evidentemente - profana, ao som do qual é arada a terra semeada nas antigas mesas marmóreas de dissecação dos animais - partilhados com o público nos vários espaços da Karnart, seremos levados para um grand final, com duas propostas de antologia:
a primeira, num desafio à Igreja Católica, traduzida numa mise-en-scène feita missa, na qual não falta a presença de Ratzinguer;
a segunda, de contornos cinematográficos no culto da imagem da diva - remetendo para Marlene Dietrich ou Rita Hayworth - com os signos visuais que lhes estão associados: grande leito, longos panejamentos, presença do vermelho. A diferença está na diva, ela mesma, ou mesmo - porque hermafrodita.
A dupla sexualidade habitando o mesmo corpo é a pista lançada para quem queira assistir ao segundo espectáculo.
A partir do material gráfico impresso para Satirotic - folha de sala e postal, da autoria de Vel Z - e em homenagem ao dia que hoje se celebra, convido o/a leitor/a a visitar algumas imagens da minha galeria :
A PEDIDO DE LUÍS CASTRO,
FORAM RETIRADAS AS IMAGENS QUE AQUI SE ENCONTRAVAM:
I
Um quadro pintado por uma criança, com fundo azul e pintalgado de mil cores, onde estão representados dois sóis amarelos, tendo sobreposta uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.
informação adicional:
a criança pintora é minha filha. Analistas da psique poderiam ver aqui a alegria de viver (pela profusão das cores), o optimismo e confiança (pelos dois sóis a irradiarem luz e sorrisos), e etc. Eu prefiro considerá-la apenas uma obra-prima. Assim sim: um pré-sinal das angústias, dúvidas e inquietações que a assaltariam agora, no lento descolar da infância.
II
Um quadro pintado em tons de vermelho e laranja, com motivos geométricos - alguns a evocarem as manchas de uma girafa, tendo sobreposta uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.
informação adicional:
o quadro foi pintado pelo artista plástico António Caturra, e pertence a uma série que esteve exposta. António Caturra dedica-se agora à escultura; três dos seus mais recentes trabalhos puderam ser vistos - e ouvidos! - na Performance CORPOS SONOROS, de Luís Beco, apresentada no ciclo PULSAR´s - produção arte pública, em Julho passado, no Teatro Pax-Julia, em Beja.
O quadro foi uma oferta amiga do pintor, em resposta ao meu olhar fixo sobre a tela.
III
Uma cortina amarela, delicadamente pousada sobre o sofá da sala (informação extra, uma vez que o sofá não aparece na fotografia), cobrindo parcialmente uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.
Informação adicional:
a cortina não será bem uma cortina - pois acerca de um pano rectangiular poderemos projectar mil intenções. Poderá ser toalha de mesa, ou resguardo de sofá - depende: múltiplas podem ser as funções de um rectângulo de pano - e a esta questão, deveras importante, voltarei. O sofá foi comprado em quinquagéssima mão - ou assento, se o leitor assim o preferir -na REMAR, para que os gatos cá da casa não estranhassem a antiguidade do material onde costumam afiar as unhas.
IV
Uma imagem de uma cara de um homem bem disposto e barbeado, algo calvo, com óculos, aparentando ter entre 40 a 50 anos, projectada num monitor de televisão, captada em directo, tendo, num dos lados, sobreposta uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepunham figurações de orgãos genitais.
informação adicional:
o rosto pertence ao administrador da TAP que em entrevista explicava a recuperação desta empresa e a recente decisão de avançar para o mercado brasileiro na reparação de aeronaves.
V
Uma jarra com flores amarelas e alguns laivos de verde, entre as quais surge uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.
informação adicional:
a jarra é um adereço de cenário, isto é: não é uma jarra: um daqueles frascos de mel ou de café que se guardam até.... servirem de reservatório para pilhas gastas, berlindes, embriões... ou para... jarra. O frasco ocultava-se pois por detrás da ráfia amarela que acompanhava as flores. Amarelas. Como amarelas são as cortinas, as toalhas, as paredes da casa. É um facto: convivo de perto - e exalto - com aquela côr de que todos têm pena. Mas os meninos da Casa do Estudante que me ofereceram, recentemente, estas flores, não sabiam da minha fixação pelo amarelo - ou saberiam?(...)
VI
Um calhau rolado cinzento escuro, riscado por uma zona branca, pousado em cima de uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepunham figurações de orgãos genitais.
informação adicional:
a pedra é um daqueles objectos que se carregam sem sabermos muito bem o porquê. Talvez para perpetuarmos um pouco mais as memórias do lugar. Esta foi recolhida numa praia do litoral alentejano - uma praia selvagem , como o deveriam ser todas as praias - com a areia coberta por calhaus rolados. No entanto, estes calhaus podem ser admirados também nas margens do Guadiana. Por baixo da pedra encontra-se uma curiosa e algo bamba mesa de madeira - talvez mogno - de uma perna e quatro pés, recolhida há uns três anos da humidade da rua.
A propósito do segundo espectáculo, L´homosexuel ou la difficulté de s´exprimer, de Copi, segue uma breve sinopse - uma entrevista feita a Jean-Michel Rabeux, que, em França, encenou este texto:
Neige et sang. Blanc et rouge vif. Des couleurs tranchées pour un spectacle tranchant. La scène ressemble à un ring, et ce qui s’y joue a quelque chose d’une partie de coups de poing. Les répliques sont comme des gifles. Elles mutilent. Elles tuent. (...) C’est une comédie dérapante, qui glisse malgré elle dans l’horrible. S’y affrontent des personnages au sexe incertain - sont-ils des hommes transformés en femmes ou des femmes devenues hommes ? L’un (l’une ?) d’eux est l’objet de toutes les attentions, de tous les désirs : Irina. L’action se passe dans une Sibérie d’opérette. Il y a des traîneaux, des chiens, des loups, un capitaine Pouchkine... Irina est enceinte. De qui ? De Madre, sa mère ? De Garbo, son amant ? Ou du mari de Garbo ? Difficile à démêler. De toute façon, Irina couche avec tout le monde. Elle accouche dans les toilettes. Avorte. Le sang gicle. Les deux autres volent à son secours, participent aussi à la mascarade. On bascule dans l’horreur, la scatologie. (...) Drôle, sarcastique, affolante, terrible (...)
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C’est la première fois que vous montez une pièce de Copi. Pourquoi aujourd’hui ?
J-M. R. : Je me suis toujours interressé à Copi. Quand je suis venu au théâtre, ceux qui ont le plus compté pour moi en dehors de Claude Régy, ce sont les Argentins. J’ai assisté dans les années 1970 à la création de L’Homosexuel ou la difficulté de s’exprimer, avec Copi lui-même dans le rôle de Garbo. J’étais très attiré aussi par le travail de Jorge Lavelli et d’Alfredo Arias. Cette chose tellement française, le bon goût, Lavelli donnait un grand coup de pied dedans. Ce mauvais goût baroque que les Français nomment vulgarité - quelque chose comme une bouche avec des confettis dedans - me réjouissait énormément. Un jour Copi a été étiqueté d’avant-garde et c’est devenu vite ringard. Mais aujourd’hui, où l’on subit une chape réactionnaire puritaine, je suis certain que les plateaux de théâtre vont redevenir de mauvais goût.(...)
D’apparence facile, le théâtre de Copi n’est pas évident à mettre en scène. Comment vous y êtes -vous pris ?
J-M. R. : Comme beaucoup de textes de Copi, L’Homosexuel est une pièce écrite hâtivement, mais il y a des choses vraiment belles. C’est un mélange permanent du grotesque le plus énorme et de l’effroi le plus glacial. Pour trouver comment jouer ça, on s’arrache les cheveux. Son théâtre est un numéro d’équilibriste, c’est ce qui le rend dangereux à interpréter. On est tout le temps dans le paradoxe, très loin de l’esprit français. (...) La pièce se passe dans une Sibérie imaginaire. Les personnages s’appellent Madre, Garbo, Irina... C’est drôle et terriblement cruel... Il y a une obscénité omniprésente et une cruauté permanente. Les corps sont grimaçants, les moeurs terribles, il y a du sang, des accouchements impossibles, mais derrière tout cela, on trouve l’amour. J’ai l’impression qu’en général ce que les femmes appellent l’amour, c’est une vie bourgeoise bien protégée. Tandis que pour les hommes, l’érotisme consiste simplement à se vider les couilles. Or, les rapports entre les monstres, clowns, animaux, chimères que sont les personnages de Copi ne relèvent ni de l’une ni de l’autre tendance. L’amour, c’est fait pour se brûler et mourir jeune.
Il y a aussi une dimension parodique, dans ce théâtre ?
J-M. R. : On joue avec la convention Tchékhovienne (puisque nous sommes en Sibérie), mais aussi avec le théâtre de boulevard. Copi n’écrit pas n’importe quoi : il y a des situations à jouer. Ceux qui jouent ces situations ne sont pas des personnages, ce sont des acteurs ringards de la fin du XIXe siècle, des chanteurs d’opéra, des loups, des chiens...
Ce sont des monstres, d’une certaine manière ?
J-M. R. : L’idée de l’éros comme contre-pouvoir est une chose tellement paradoxale ! Ce que j’aime par-dessus tout, c’est l’explosion de l’ordre par les excès de l’éros. Quelle que soit la forme de ces excès. J’aime les monstres, les marginaux ; pour moi, ce qui est monstrueux, c’est l’ordre qui les voit comme ça. Je ne suis pas heureux du rapport que les gens entretiennent aujourd’hui les uns avec les autres. Il me semble normal d’être marginal. (...) Si on monte Copi, ce n’est pas pour la gloire, encore moins pour l’argent. On va encore nous dire que c’est vulgaire. Car la nécessité d’un ordre social et d’un ordre moral ne saurait être remise en question. Pourtant, cet ordre ne doit pas être considéré comme une valeur. Ces règles que l’on veut faire entrer dans nos crânes, nos lits, nos sueurs, nos sexes sont une forme de totalitarisme subtil que je ne peux pas accepter.
O espectáculo do Luís Castro serve o texto, em trabalho de actor a que já nos habituou: rigoroso.
As três actrizes: Rita Tomé, Isabel Galvão e Margarida Cardeal emprestam os corpos e o talento a uma encenação que as aprisiona marionetas.
Em alguns momentos, arrepiei-me com a interpretação de Margarida Cardeal.
Mas Luís Castro, que se insurge contra a soberba, a homofobia, o sexismo, o fanatismo e outros ismos, fez-me chegar, nas suas variadas opções - dramatúrgica, distribuição de elenco, direcção de actores - um produto que considero fascizante e de intenções humilhantes em relação ao ser-se mulher.
Execrável.