Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

Pisões, Magdalena, Yourcenar

O que existe entre nós é melhor do que amor:
é cumplicidade.

Fogos

Marguerite Yourcenar



Fim de tarde em Pisões. A Villa Romana permanece desde o séc I AC, aqui, a 10 km de Beja.

Um conjunto impressionante de compartimentos - com destaque para o lugar da água na arquitectura - onde sobressaem os tanques, as termas, a piscina.

O sítio está impregnado da marca da inteligência humana, da busca da harmonia e da sensibilidade estética - sob a velha ordem da Pax Romana.

Os tijolos, as pedras, os mosaicos, falam - no silêncio dos tempos - enquanto as aves do lugar embalam o quase crepúsculo para os ouvidos atentos.

Um lugar privilegiado para resgatar memórias da literatura, que surgem, esparsas.

Um amigo evoca Mário de Carvalho - com Um Deus passeando pela brisa da tarde; eu fixo-me em Yourcenar - mas não n´As Memórias de Adriano.

Assalta-me um texto que trabalhei em tempos - e que devo a um Tito Lívio contemporâneo ter-mo dado a conhecer: Maria Magdalena ou A Salvação - numa tradução de Manuel Alberto.

A importância cultural de Maria Magdalena feita personagem, é incontestável - pois que sobreviveu à poeira dos séculos na personificação da Mulher dual, imaginada - e temida - pelo Homem, ao longo da História: a face lunar da prostituta, devassa e oferecida, em secretas e estreitas relações com a face solar da recatada, humilde, santa servidora..

Marguerite Yourcenar assina nesta Magdalena um retrato humano num episódio invulgar, que se conta em breves passos:

1. mulher (Maria Magdalena) casa com homem (João)

2. homem abandona mulher na noite de núpcias para seguir a chamada de Deus;

3. mulher, despeitada, oferece-se a outro homem (centurião romano);

4. condenada pela família e sociedade, tira da fama o proveito - e faz da sedução modo de vida;

5. busca Deus - personificado em Cristo - para n´Ele exercer a vingança através da sedução, na presença de um João já feito Apóstolo - mas o que encontra, é a Redenção.

... em Pisões, com Yourcenar, dando agora voz à sua Magdalena, em breves trechos deste episódio:














fotos: gi cañamero

Procurarei merecer o génio de Yourcenar na interpretação desta Magdalena, com estreia marcada para 2006, no Dia Mundial do Teatro - 27 de Março - no Teatro que conserva título romano: Pax-Julia.

Quarta-feira, Dezembro 28, 2005

o caminho

Em rigor, ninguém sabe à volta do quê e de quem
gira o imenso poder de sedução
que se experimenta na sociedade contemporânea da abundância.

A sua lógica, no entanto, é cristalina.

Quer nos anúncios, quer nas notícias,
os critérios de participação e de exclusão são claros.

Em momentos cerimoniais como o das compras em massa
que socialmente se impõe nesta quadra,
percebe-se que no mundo simbólico digital,
na realidade imaterial em que vivemos,
a nossa história é contada todos os dias na televisão:

se tudo correr bem, se rodarmos na grande roda da abundância,
as boas notícias, ou seja, a publicidade, é o que nos é dirigido;
caso contrário, um dia, sem querer, aparecemos no telejornal.

Na FNAC ou no Media Markt, em qualquer gigantesca casa de livros, filmes e música
das milhares que existem pelo Mundo Ocidental,
compreende-se como hoje as boas notícias são a publicidade
e as más notícias o telejornal.

As boas e as más notícias

Fernando Ilharco

@gi cañamero

... e... na época em que se propõem os votos de mudança:

o/a leitor/a escolherá o - por vezes sofredor - caminho da consciência - que permite a transfiguração do real - ou a ilusão do entretenimento/vivência virtual?


@gi cañamero


... ser um/a caminhante que rasga o seu caminho - ou mais um peão num fabuloso jogo com desfecho viciado?


@gi cañamero
.. romper com rotinas-padrão - de pensamento, de discurso, de acção - ou permanecer agrilhoado/a à ferrugem das certezas comezinhas?

Sábado, Dezembro 24, 2005

uma raposa no quintal

está a chover, está a pingar
e a raposa no quintal
a apanhar laranjinhas
para o dia do natal


cantilena infantil

@gi cañamero


O Natal que agora comemoramos deve ter sido uma data importante - para que o nosso calendário seja regido por essa data: a data de um nascimento ocorrido há 2005 anos.

Um nascimento ocorrido num meio - conta-se - que seria difícil de imaginar mais pobre: o recém-nascido foi acomodado entre palhas de um estábulo, dizem.

Deve ser por isso que hoje O comemoramos em volta de mesas fartas, em volta de uma (pre) ocupação chamada de consoada - quantas vezes objecto de discussão por se o perú por se o bacalhau - enquanto se aguarda a hora da troca de objectos, candida ou ansiosamente adquiridos como prova de afeição - dizem.


Os assim feitos apaziguadores de almas em nada ficam atrás dos vendilhões do templo - cada vez mais
made in China - mas quem repara nisso?

Nos lares multiplicam-se as figuras do menino - mas mais do que O Menino, é A Infância que ali se espelha. Todas as infâncias, pois que todos já nadámos nas águas claras da pura crença.


Aconcheguem-se esses bonecos no calor do lar - enquanto a mesma infância é deixada ainda à sua (má) sorte , como o provam as inúmeras Letícias e Joanas deste país - feito de gente cega e surda ao sofrimento de quem mora ao seu lado.


A oliveira mediterrânica, que irrompe como uma mão aberta aos céus, tanto em Jerusalém como no Alentejo, foi eclipsada pelo abeto de tradições nórdicas - se possível a compor com uns laivos de spray de neve artificial - e um personagem, que por força do marketing, já se confunde com a Coca-Cola, emerge Santa Claus, travestido em cada família, para gáudio - quase circense - da pequenada.


Fez-se tradição de um ritual familiar em torno d´Aquele que era censurado pela sua própria família: um Filho tresmalhado por preferir as ruas à sua casa, por se fazer acompanhar de pessoas pouco recomendáveis - e, heresia!, pretender mesmo albergá-las em sua casa - por, justamente, eleger como Missão de Vida fazer transbordar os laços que a família tem adquiridos como exclusivo seu a todos os outros - e ao mundo.


É certo que, nesta comemoração às avessas, surge muitas vezes, qual Grilo Falante, a consciência mais afinada de um sentimento que se instala e cresce feito espírito: a nostalgia.


A nostalgia do que cada um poderia fazer do (seu) Natal.





PS - No Alentejo, a pobreza de outros tempos vivida em terras de latifúndio, contribuíu para o desenvolvimento de um fenómeno cultural único: o Cante ao Menino - que os trabalhadores ofereciam às casas abastadas, sensibilizando os mais afortunados para a falta, a miséria, a necessidade. O Cante ao Menino extravasa amplamente a questão religiosa por conter alusões do foro social. A dádiva originaria a partilha da mesa comunitária.

Este Cante - onde está ele, agora como manifestação de uma identidade cultural? - é, em si, uma preciosidade que importa manter viva.

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

quadros para uma exposição

A imaginação, com efeito, é o sentido dos sentidos.
A razão disso é que o próprio espírito imaginativo
é o orgão sintético e o primeiro corpo da alma.

Ficando escondido e agindo no interior da alma,
esse sentido contem a parte superior do ser vivo
e constitui por assim dizer o seu cume

(porque foi à volta dele que a natureza
constituiu toda a maquinaria do indivíduo)...


De imaginum compositione
Bruno


@gi cañamero

Tomo o título desta crónica emprestado à obra musical de Mussorgsky, que aprecio deveras.

São sete os quadros, refeitos após a solicitação de Luís Castro para que não utilizasse a folha de sala do seu último espectáculo. Optei então por esbater, transformar ou, simplesmente, apagar a imagem do folheto - substituindo-a pelo discurso narrativo.

Considero esta opção muito mais eficaz.

No entanto, assalta-me a interrogação - sobre o direito - ou a falta dele - de apropriação de imagens no discurso para criação artística:

- que seria de Andy Warhol, se a Coca-Cola, as sopas Campbell's e o governo americano o proíbissem de utilizar as garrafas do refrigerante, as latas da sopa e as notas de dólar nas suas incisivas investidas sobre estes objectos como símbolos da sociedade da massificação?

@gi cañamero

O anjinho é de gesso, a imitar talha dourada e está pendurado, desde o Natal passado, na portada da janela. Tinha um duplo, um seu irmão gémeo, também pendurado, que não resistiu às diatribes dos jovens felinos. Caíu - e foi um ar que lhe deu.

Mas este é um sobrevivente. Hossana nas alturas.


@gi cañamero

Ao pequeno écrã é roubado este rosto - pertencente ao administrador da TAP que, em entrevista, explica a recuperação desta empresa e a recente decisão de avançar para o mercado brasileiro na reparação de aeronaves.

@gi cañamero
Os rostos das meninas com ar barroco têm à frente a palhinha e o recipiente com água ensabonada, para se deleitarem com as bolas de sabão.
Estão impressas num saco - daqueles objectos que se guardam na despensa, junto a outros sacos de papel, à espera do dia em que sejam retirados para a luz - nem que seja a caminho do papelão.
Recordo que estaria nesse limbo desde o Natal passado - altura em que me foi oferecido, embrulhando, se não me engano, uma garrafa de... de quê?... mas de quê?... uísque?... vodka?... vinho alentejano?... licor de poejo?... (imperdoável, esta falha)



@gi cañamero

Um quadro pintado por uma criança, com fundo azul e pintalgado de mil cores, onde estão representados dois sóis amarelos.

A criança pintora é minha filha. Analistas da psique poderiam ver aqui a alegria de viver (pela profusão das cores), o optimismo e confiança (pelos dois sóis a irradiarem luz e sorrisos), e etc.

Eu prefiro considerá-la apenas uma obra-prima.

Assim sim: um pré-sinal das angústias, dúvidas e inquietações que a assaltariam agora, no lento descolar da infância.


@gi cañamero
Um quadro pintado em tons de vermelho e laranja, com motivos geométricos - alguns a evocarem as manchas de uma girafa, pintado pelo artista plástico António Caturra.

Pertence a uma série que esteve exposta. António Caturra dedica-se agora à escultura; três dos seus mais recentes trabalhos puderam ser vistos - e ouvidos! - na Performance CORPOS SONOROS, de Luís Beco, apresentada no ciclo PULSAR´s - produção arte pública, em Julho passado, no Teatro Pax-Julia, em Beja.

O quadro foi uma oferta amiga do pintor, em resposta ao meu olhar fixo sobre a tela.



@gi cañamero

O calhau rolado, cinzento escuro, riscado por uma zona branca, é um daqueles objectos que se carregam sem sabermos muito bem o porquê. Talvez para perpetuarmos um pouco mais as memórias do lugar. Esta foi recolhida numa praia do litoral alentejano - uma praia selvagem , como o deveriam ser todas as praias - com a areia coberta por calhaus rolados. No entanto, estes calhaus podem ser admirados também nas margens do Guadiana.

Por baixo da pedra encontra-se uma curiosa e algo bamba mesa de madeira - talvez mogno - de uma perna e quatro pés, recolhida há uns três anos da humidade da rua.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

uma pessoa

Há um mito segundo o qual um actor
com um certo fundo de experiência
pode construir o que se chama o seu “arsenal” – ou seja:
uma acumulação de métodos, de artifícios e de truques. (...)

A diferença entre o actor “cortesão” e o actor “santo”
é a mesma que existe entre uma cortesã
e a atitude de dádiva que nasce do amor verdadeiro:
por outras palavras, o sacrifício de si próprio.

Grotowsky



@gi cañamero

Cruzei-me, nos anos oitenta, no início do meu percurso profissional, com vários homens de teatro – encenadores - muito distintos entre si – nos modos de ser, na estética professada e nos conteúdos - que, com o seu exemplo, as suas rotinas, as suas exigências – fizeram-me perceber quão diversos são os métodos em que se podem ancorar os processos de encenação.

Como intérprete, vivi a criação comunitária do Teatro O Bando, impressa por João Brites, a poética rendilhada do Teatro da Técnica, na altura sob a marca de Jorge Listopad, a marcação de cena cerrada de João Lourenço, no Teatro Aberto.

Como responsável pelo ambiente musical num célebre Todo-o-Mundo e Ninguém, de Hugo Von Hoffmanstal – vivi frescas noites de verão nas Ruínas do Carmo descortinando a encenação de Carlos Avillez.

Mas é como assistente de encenação

de Mário Feliciano num Calderón de Pasolini – numa tentativa (lograda) de devolver à Baixa lisboeta o antigo Teatro do Gymnasyo, já então destruído pelo fogo,

e de Luís Miguel Cintra nas óperas L´Enfant et Les Sortilèges, de Ravel, e Dido et Eneias, de Purcell, no Teatro Nacional de S. Carlos,

que a proximidade ao encenador me permite entender plenamente as linhas mestras das suas opções.

De Carlos Avillez guardo o modo efusivo, a paixão – fosse ela preocupação ou admiração – no relacionamento com actores e técnicos. De Mário Feliciano – a subtileza e a gentileza das palavras e dos modos, numa abordagem quase classissista do texto. Registe-se a sua morte, prematura, que a todos nos surpreendeu, apanhados que fomos na voragem da pandemia do fim do século XX.


@ gi cañamero

De Luís Miguel Cintra – um nome indissociável do Teatro da Cornucópia, ao Bairro Alto, que dirige desde a sua fundação - guardo a sua necessidade de silêncio e de reclusão interna. Poucas palavras e muitas certezas – no trilhar do caminho que a sua visão do espectáculo ditava.

Foi a este actor, dramaturgista, encenador, director de actores, que foi atribuído, este ano, o mais importante prémio nacional que distingue o percurso singular de “uma pessoa de nacionalidade portuguesa que, durante esse período e na sequência de uma actividade anterior, tiver sido protagonista relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica do país”: o Prémio Pessoa – uma iniciativa conjunta do jornal Expresso e da Unisys Portugal.

É a primeira vez que o TEATRO é distinguido deste modo – o que nos emociona particularmente, a todos quantos continuamos a insistir em trabalhar, em formar, em criar, no âmbito das artes do palco.

Distinguir alguém em vida, neste país - um país que revela, mais do seria saudável, a comemoração póstuma como modo de evidenciar aqueles que dão o seu melhor - e que ombreiam, pela pertinência e qualidade do seu exemplo, com muitos de além-fronteiras – é algo que não pode deixar de ser celebrado.

Parabéns, Luís Miguel Cintra, por esta distinção inteiramente merecida.

Domingo, Dezembro 18, 2005

um pombo na banheira

–Adeus – disse a raposa.
Vou contar-te o tal segredo.
É muito simples: só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível para os olhos...

Antoine de Saint-Éxupery
O Princípezinho
@gi cañamero

Em cada caminho, uma encruzilhada.

Em cada encruzilhada, um leque de opções.

Assim é, em tudo, neste fugaz rasto da vida a que chamamos nossa.

E quando, no caminho, a opção pode ser olhar - ou agir? - ou ignorar? - um ou outro ser inocentemente enredado numa teia que não pode compreender?

E que acaso proporcionou esse encontro?

O segundo preciso em que saio à rua quando passa aquele cachorro de olhar sedento abanando a cauda presa a um corpo em chagas de tinha – e que hoje, cão adulto, dorme a meus pés?

O momento em que a filha resolve dar uma volta de bicicleta numa mata próxima onde ouve os gemidos de uma ninhada de gatos recém nascidos ali propositadamente abandonada – e que cresceram e se fixaram aqui em casa?

O lapso de tempo que demora a fixar o olhar na incredulidade do que possa ser aquela perda rolada encostada a uma berma da rua da morada e que se revela, afinal, ser uma tartaruga adulta – logo devolvida ao leito do Guadiana?

São tantas as pequenas histórias de vidas – de morcegos, de andorinhas, de abetardas... – que se têm revelado nas encruzilhadas do caminho – tantas, decerto, como a si - cara leitora, caro leitor.

...Ou... não...?

E hoje, hélas, dia de caça no Alentejo profundo, uma mais: no instante preciso em que o olhar se acomoda nos socalcos da terra lavrada, uma ave emerge aos soluços, no esforço de vãs tentativas do vôo.

Aproximo-me. É um pombo.


@gi cañamero

Debaixo da asa direita o corpo aparece rasgado, a carne viva.

É dia de caça também por Beja.

E em Évora, o estigma da gripe das aves é responsável pela “recolha” de pombos em grande escala – onde a Autarquia prefere usar o eufemismo do termo - com direito a tempos de antena, em horário nobre, no pequeno, diminuto, insignificante écrã.

Pois, cá por casa, e até que a asa esteja capaz de sustentar a leveza do ser, convivo com um pombo na banheira.


@gi cañamero

Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

língua mater dolorosa

Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda a bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luís Vaz a chama joalhada

tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus verbos feridos vão de maca.

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda... mas de vaca.


Língua Mater Dolorosa

Natália Correia

@gi cañamero

On the road para Lisboa, no vislumbre de uma tarde de trabalho partilhado.

A caminho, dou-me conta de que me esqueci - os discos... – da música para a viagem.

Lapso grave – que irei, já sei, pagar caro.

Temendo o inevitável, arrisco a rádio.

A música, a voz, a canção, em embrulho de pura técnica e tecnologias ao serviço do consumo de massas:

Trying hard to...

Muda.

I dream about...

… together now...

Muda, muda – e atenção à estrada.

A RFM promete-me, para depois dos anúncios, a melhor música de sempre. Aguardo.

…you give up…

… you won´t be free…

A Antena Um faz-se ouvir em português: Jerónimo de Sousa está a ser entrevistado. Registo o tom grave e sedutor da voz – bem colocada, por sinal. A Polícia foi injusta... demitiria o Governo se… contra o candidato da direita...

Sem desmerecer entrevistadora e entrevistado – chega de manifesto político. Muda.

Em língua portuguesa, oiço os anúncios - e as notícias do trânsito, uma oferta de... Muda.

Atenção! Parece um programa cultural – sobre cinema. E é então que a voz feminina debita – em português, é certo – as tabelas de sucesso do filme X nas salas americanas. Filmes americanos. Claro.

Muda.

… the power of love…

Desisto. Antes o silêncio.

Corresponderá esta programação das nossas excelentíssimas rádios a algum tipo de resposta ao apelo do Primeiro Ministro de Portugal para a urgência da aprendizagem da língua inglesa?

Mas não; Sócrates só é responsável por esta filosofia desde há uns meses – desde que ergueu a bandeira do tal choque tecnológico - e esta colonização permitida e permissiva dura já... há demasiados anos.

Chego ao local de trabalho, que ostenta nome de cais. Daqui partiram naus e caravelas. Cais do Sodré, Praça do Comércio – o centro da capital do Império.

O Império esboroou-se. E poderia ter-se tornado bem forte, esta civilização, com a miscenização de gentes, credos e culturas.

Em vez disso, a indústria americana do audiovisual engole e decide a maior parte da programação da tv.

O Primeiro quer que as crianças aprendam inglês nas escolas – enquanto o português continua a ser enxovalhado por programas, manuais e estratégias (sim, salvam-se alguns professores, eu sei – algumas ondas que não alinham na maré de boçalidade em que caímos).

Pero, a lo mejor, señor ministro, quizas antes el castellano, para qué, como vemos lo qué está ocorriendo, se marchen a las universidades españolas a estudiar ... a trabajar en la Zara... y mismo... en la tv (TVI)...

Bem, o castelhano sempre tem uma origem comum, latina. Faz-me menos mal ao ouvido.



@gi cañamero

No regresso – após uma tarde de trabalho entusiasta com jovens a dizerem e a cantarem Camões - a mão dirije-se, a medo, ao comando da rádio. Será pedir demasiado ouvir português?

... português do Brasil?...
... bem... então...
… castelhano?...

Será.

Oh give me more…

Muda.

… Christmas night…

Muda.

… you´re so far away from me…

Sim, noutra circunstância poderia ouvir os Dire Straits. E, no entanto, torna-se-me impossível a escuta. O som que se ouve nas rádios portuguesas é violento. Violenta pela desbragada ostentação. E os responsáveis por este descalabro e agressão são os proprietários dos espaços radiais – que, note-se, são atribuídos mediante condições, também de programação – e os seus programadores /locutores que cultivam um estilo de permanente adolescência, num vozear de ignorante alegria – o último elo da cadeia de servilismo cultural - que é também político, e económico..

Muda.

A Antena Um !...repete a entrevista a Jerónimo de Sousa. A Polícia foi injusta... demitiria o Governo se… contra o candidato da direita...

Porquê esta pressa em chegar a casa?

Domingo, Dezembro 11, 2005

a amizade

Na amizade não podemos proclamar uma coisa e fazer outra.
Na amizade os pactos são respeitados, a lealdade merecida.
A amizade deve ser leal, sincera, límpida.
O amigo deve querer o bem do amigo, não por palavras, mas concretamente.
Deve estar presente no momento da necessidade.


A amizade
Francesco Alberoni

@gi cañamero

Arrisco-me pela serra algarvia tendo como destino rever uma amiga. Passou, pelo menos, uma eternidade desde que tive o privilégio de trabalhar com esta menina feita mulher - uma força da natureza - e anos desde o nosso último encontro. Agora, com vários quilómetros de permeio, algumas cartas trocadas e uma família de pequenos infantes, tornou-se imperioso um breve, mas necessário reencontro.

Partilha comigo o risco rodoviário do zig-zag serrano uma outra amiga. Solavancamos os quilómetros em conversas avulsas, intermediadas pelo silêncio que cai, por vezes, com o cansaço.

A estrada é uma serpente a serpentear - nocturna - de onde irrompe uma beleza selvagem de contenção, de segredos, apenas adivinhada por entre a negritude densa - que nem os faróis conseguem rasgar.

No silêncio e na escuridão da serra, a certeza da pertença a este universo não artificioso.

E, de pronto, a inevitabilidade da luz.
Com o espírito natalício, uma mania electrificadora apoderou-se das vilas, das cidades, das aldeias.

No esconjuro das sombras, valha ao pobre de espírito a certeza científica da iluminação pela corrente eléctrica. Um simulacro do clima de sabedoria - pago, na maior parte das vezes, por uma associação de comerciantes local, em custosos contributos - e profícuos conflitos.

Nada disto tem verdadeira importância. Apenas isto: a despesa feita pelo consumidor nesta quadra natalícia pode ser proporcional ao grau de eficácia com que se ilusiona a elevação do seu estado de espírito.

Hoje, tudo pode ser tão ligeiro ou descartável, não é verdade?

(bem... sobra a amizade.)

para
as amigas, os amigos.

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

on the road - Paio Pires

Não faças, no entanto, representar na cena o que se passa nos bastidores...
Arte Poética
Horácio
@gi cañamero
variações sobre Camões I
Em Paio Pires, a surpresa de um Teatro.


@gi cañamero
Teatro de Paio Pires - plateia

Não faças, no entanto, representar na cena o que deva passar-se nos bastidores...


@gi cañamero

camarim

Variações sobre CAMÕES É UM POETA RAP:

(nos bastidores, claro...)



@gi cañamero

variações sobre Camões II e III

Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

satirotic

- (...) Gaston, toque o Convite à valsa.

- Para quê?

- Primeiro, para me dar prazer, e depois porque não sou capaz de o tocar sózinha.

- Onde é que se atrapalha?

- Na terceira parte, na passagem em sustenido.

A Dama das Camélias

Alexandre Dumas (Filho)

A PEDIDO DE LUÍS CASTRO,
FOI RETIRADA A IMAGEM QUE AQUI SE ENCONTRAVA:


Um saco de papel com a imagem de duas caras de meninas quase renascentistas, em tons de dourado, olhando fixamente a objectiva enquanto se preparam para fazerem bolinhas de sabão com palhinha e tigela cheia de água ensabonada, onde, a um canto, está presente uma folha de sala de um espectáculo, em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.

gi cañamero/ as meninas

informação adicional:

o saco é daqueles objectos que se guardam na despensa, junto a outros sacos de papel, à espera do dia em que sejam retirados para a luz - nem que seja a caminho do papelão. Recordo que estaria nesse limbo desde o Natal passado - altura em que me foi oferecido, embrulhando, se não me engano, uma garrafa de... de quê?... mas de quê?... uísque?... vodka?... vinho alentejano?... licor de poejo?... (imperdoável, esta falha)

Regresso de madrugada após a estreia de dois espectáculos de Luís Castro.

Luís Castro cria o espaço Karnart na Rua da Escola Veterinária - por cedência Faculdade de Veterinária, que assim permite a dinamização - artística, social, de intervenção política - de um espaço desactivado, numa zona central de Lisboa.

Um exemplo que outros proprietários poderiam seguir, um pouco por todo o país.

Primeiro, um espectáculo com poesia portuguesa, satírica, erótica e obscena: Satirotic.

Luís Castro tem feito da divulgação/acção contra a repressão da liberdade sexual e contra os estereótipos do socialmente aceite e do politicamente correcto uma causa aberta, traduzida nas suas obras - sejam perfinst (performance/instalação) com a intervenção plástica do seu compagnon de route Vel Z - da qual Beja recordará Pecado, onde tive a oportunidade de participar e de trazer a Beja, numa co-produção com o arte pública - sejam puro teatro da palavra - como em L´homosexuel ou la difficulté de se exprimer, agora, também, estreado.

O encenador assume aqui, clara e textualmente, como principais alvos, a Igreja Católica e aquilo que denomina como o lobby fascista.

Revisitar, nas Letras, uma face geralmente oculta, em propostas dramáticas através dos actores/diseurs - André Amálio, Luís Caboco, Luís Castro e Ricardo Cruz - com textos de Bocage, António Botto, Almada Negreiros, Cesariny, entre outros.

Entre diversas cenas feitas quadros - porque contextualizadas e dependentes da arquitectura do lugar - onde não falta um cante alentejano, com letra - evidentemente - profana, ao som do qual é arada a terra semeada nas antigas mesas marmóreas de dissecação dos animais - partilhados com o público nos vários espaços da Karnart, seremos levados para um grand final, com duas propostas de antologia:

a primeira, num desafio à Igreja Católica, traduzida numa mise-en-scène feita missa, na qual não falta a presença de Ratzinguer;

a segunda, de contornos cinematográficos no culto da imagem da diva - remetendo para Marlene Dietrich ou Rita Hayworth - com os signos visuais que lhes estão associados: grande leito, longos panejamentos, presença do vermelho. A diferença está na diva, ela mesma, ou mesmo - porque hermafrodita.

A dupla sexualidade habitando o mesmo corpo é a pista lançada para quem queira assistir ao segundo espectáculo.


A partir do material gráfico impresso para Satirotic - folha de sala e postal, da autoria de Vel Z - e em homenagem ao dia que hoje se celebra, convido o/a leitor/a a visitar algumas imagens da minha galeria :

A PEDIDO DE LUÍS CASTRO,
FORAM RETIRADAS AS IMAGENS QUE AQUI SE ENCONTRAVAM:

I
Um quadro pintado por uma criança, com fundo azul e pintalgado de mil cores, onde estão representados dois sóis amarelos, tendo sobreposta uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul,
com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.

informação adicional:
a criança pintora é minha filha. Analistas da psique poderiam ver aqui a alegria de viver (pela profusão das cores), o optimismo e confiança (pelos dois sóis a irradiarem luz e sorrisos), e etc. Eu prefiro considerá-la apenas uma obra-prima. Assim sim: um pré-sinal das angústias, dúvidas e inquietações que a assaltariam agora, no lento descolar da infância.

II
Um quadro pintado em tons de vermelho e laranja, com motivos geométricos
- alguns a evocarem as manchas de uma girafa, tendo sobreposta uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.


informação adicional:
o quadro foi pintado pelo artista plástico António Caturra, e pertence a uma série que esteve exposta. António Caturra dedica-se agora à escultura; três dos seus mais recentes trabalhos puderam ser vistos - e ouvidos! - na Performance CORPOS SONOROS, de Luís Beco, apresentada no ciclo PULSAR´s - produção arte pública, em Julho passado, no Teatro Pax-Julia, em Beja.
O quadro foi uma oferta amiga do pintor, em resposta ao meu olhar fixo sobre a tela.


III
Uma cortina amarela, delicadamente pousada sobre o sofá da sala (informação extra, uma vez que o sofá não aparece na fotografia), cobrindo parcialmente
uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.

Informação adicional:
a cortina não será bem uma cortina - pois acerca de um pano rectangiular poderemos projectar mil intenções. Poderá ser toalha de mesa, ou resguardo de sofá - depende: múltiplas podem ser as funções de um rectângulo de pano - e a esta questão, deveras importante, voltarei. O sofá foi comprado em quinquagéssima mão - ou assento, se o leitor assim o preferir -na REMAR, para que os gatos cá da casa não estranhassem a antiguidade do material onde costumam afiar as unhas.

IV
Uma imagem de uma cara de um homem bem disposto e barbeado, algo calvo, com óculos, aparentando ter entre 40 a 50 anos, projectada num monitor de televisão, captada em directo,
tendo, num dos lados, sobreposta uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepunham figurações de orgãos genitais.

informação adicional:
o rosto pertence ao administrador da TAP que em entrevista explicava a recuperação desta empresa e a recente decisão de avançar para o mercado brasileiro na reparação de aeronaves.


V
Uma jarra com flores amarelas e alguns laivos de verde, entre as quais surge
uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepõem figurações de orgãos genitais.

informação adicional:
a jarra é um adereço de cenário, isto é: não é uma jarra: um daqueles frascos de mel ou de café que se guardam até.... servirem de reservatório para pilhas gastas, berlindes, embriões... ou para... jarra. O frasco ocultava-se pois por detrás da ráfia amarela que acompanhava as flores. Amarelas. Como amarelas são as cortinas, as toalhas, as paredes da casa. É um facto: convivo de perto - e exalto - com aquela côr de que todos têm pena. Mas os meninos da Casa do Estudante que me ofereceram, recentemente, estas flores, não sabiam da minha fixação pelo amarelo - ou saberiam?(...)

VI
Um calhau rolado cinzento escuro, riscado por uma zona branca, pousado em cima de
uma folha de sala de um espectáculo em tons de azul, com a representação de um corpo de mulher no qual se sobrepunham figurações de orgãos genitais.

informação adicional:
a pedra é um daqueles objectos que se carregam sem sabermos muito bem o porquê. Talvez para perpetuarmos um pouco mais as memórias do lugar. Esta foi recolhida numa praia do litoral alentejano - uma praia selvagem , como o deveriam ser todas as praias - com a areia coberta por calhaus rolados. No entanto, estes calhaus podem ser admirados também nas margens do Guadiana. Por baixo da pedra encontra-se uma curiosa e algo bamba mesa de madeira - talvez mogno - de uma perna e quatro pés, recolhida há uns três anos da humidade da rua.










A propósito do segundo espectáculo, L´homosexuel ou la difficulté de s´exprimer, de Copi, segue uma breve sinopse - uma entrevista feita a Jean-Michel Rabeux, que, em França, encenou este texto:

Neige et sang. Blanc et rouge vif. Des couleurs tranchées pour un spectacle tranchant. La scène ressemble à un ring, et ce qui s’y joue a quelque chose d’une partie de coups de poing. Les répliques sont comme des gifles. Elles mutilent. Elles tuent. (...) C’est une comédie dérapante, qui glisse malgré elle dans l’horrible. S’y affrontent des personnages au sexe incertain - sont-ils des hommes transformés en femmes ou des femmes devenues hommes ? L’un (l’une ?) d’eux est l’objet de toutes les attentions, de tous les désirs : Irina. L’action se passe dans une Sibérie d’opérette. Il y a des traîneaux, des chiens, des loups, un capitaine Pouchkine... Irina est enceinte. De qui ? De Madre, sa mère ? De Garbo, son amant ? Ou du mari de Garbo ? Difficile à démêler. De toute façon, Irina couche avec tout le monde. Elle accouche dans les toilettes. Avorte. Le sang gicle. Les deux autres volent à son secours, participent aussi à la mascarade. On bascule dans l’horreur, la scatologie. (...) Drôle, sarcastique, affolante, terrible (...)

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C’est la première fois que vous montez une pièce de Copi. Pourquoi aujourd’hui ?

J-M. R. : Je me suis toujours interressé à Copi. Quand je suis venu au théâtre, ceux qui ont le plus compté pour moi en dehors de Claude Régy, ce sont les Argentins. J’ai assisté dans les années 1970 à la création de L’Homosexuel ou la difficulté de s’exprimer, avec Copi lui-même dans le rôle de Garbo. J’étais très attiré aussi par le travail de Jorge Lavelli et d’Alfredo Arias. Cette chose tellement française, le bon goût, Lavelli donnait un grand coup de pied dedans. Ce mauvais goût baroque que les Français nomment vulgarité - quelque chose comme une bouche avec des confettis dedans - me réjouissait énormément. Un jour Copi a été étiqueté d’avant-garde et c’est devenu vite ringard. Mais aujourd’hui, où l’on subit une chape réactionnaire puritaine, je suis certain que les plateaux de théâtre vont redevenir de mauvais goût.(...)


D’apparence facile, le théâtre de Copi n’est pas évident à mettre en scène. Comment vous y êtes -vous pris ?

J-M. R. : Comme beaucoup de textes de Copi, L’Homosexuel est une pièce écrite hâtivement, mais il y a des choses vraiment belles. C’est un mélange permanent du grotesque le plus énorme et de l’effroi le plus glacial. Pour trouver comment jouer ça, on s’arrache les cheveux. Son théâtre est un numéro d’équilibriste, c’est ce qui le rend dangereux à interpréter. On est tout le temps dans le paradoxe, très loin de l’esprit français. (...) La pièce se passe dans une Sibérie imaginaire. Les personnages s’appellent Madre, Garbo, Irina... C’est drôle et terriblement cruel... Il y a une obscénité omniprésente et une cruauté permanente. Les corps sont grimaçants, les moeurs terribles, il y a du sang, des accouchements impossibles, mais derrière tout cela, on trouve l’amour. J’ai l’impression qu’en général ce que les femmes appellent l’amour, c’est une vie bourgeoise bien protégée. Tandis que pour les hommes, l’érotisme consiste simplement à se vider les couilles. Or, les rapports entre les monstres, clowns, animaux, chimères que sont les personnages de Copi ne relèvent ni de l’une ni de l’autre tendance. L’amour, c’est fait pour se brûler et mourir jeune.


Il y a aussi une dimension parodique, dans ce théâtre ?

J-M. R. : On joue avec la convention Tchékhovienne (puisque nous sommes en Sibérie), mais aussi avec le théâtre de boulevard. Copi n’écrit pas n’importe quoi : il y a des situations à jouer. Ceux qui jouent ces situations ne sont pas des personnages, ce sont des acteurs ringards de la fin du XIXe siècle, des chanteurs d’opéra, des loups, des chiens...


Ce sont des monstres, d’une certaine manière ?

J-M. R. : L’idée de l’éros comme contre-pouvoir est une chose tellement paradoxale ! Ce que j’aime par-dessus tout, c’est l’explosion de l’ordre par les excès de l’éros. Quelle que soit la forme de ces excès. J’aime les monstres, les marginaux ; pour moi, ce qui est monstrueux, c’est l’ordre qui les voit comme ça. Je ne suis pas heureux du rapport que les gens entretiennent aujourd’hui les uns avec les autres. Il me semble normal d’être marginal. (...) Si on monte Copi, ce n’est pas pour la gloire, encore moins pour l’argent. On va encore nous dire que c’est vulgaire. Car la nécessité d’un ordre social et d’un ordre moral ne saurait être remise en question. Pourtant, cet ordre ne doit pas être considéré comme une valeur. Ces règles que l’on veut faire entrer dans nos crânes, nos lits, nos sueurs, nos sexes sont une forme de totalitarisme subtil que je ne peux pas accepter.

O espectáculo do Luís Castro serve o texto, em trabalho de actor a que já nos habituou: rigoroso.

As três actrizes: Rita Tomé, Isabel Galvão e Margarida Cardeal emprestam os corpos e o talento a uma encenação que as aprisiona marionetas.

Em alguns momentos, arrepiei-me com a interpretação de Margarida Cardeal.

Mas Luís Castro, que se insurge contra a soberba, a homofobia, o sexismo, o fanatismo e outros ismos, fez-me chegar, nas suas variadas opções - dramatúrgica, distribuição de elenco, direcção de actores - um produto que considero fascizante e de intenções humilhantes em relação ao ser-se mulher.

Execrável.