Quinta-feira, Março 29, 2007

I.C.A.: o diploma

Bem vindos ao I.C.A., o Inventário de Coisas Antigas - embora saibamos bem que o antigo é já o computador que comprámos ontem - e que não vale a pena tentarmos acompanhar os tempos como o barrete que a indústria, o comércio e o entertainement nos querem enfiar pela nossa não desmiolada - mas muito poucas vezes sabedora - cabecinha.

Pois quando, muito, mas muito, mesmo muito maldosamente alguém - geralmente um filho - me diz isso era no teu tempo respondo-lhe prontamente que o meu tempo é este. Pois. Toma.

Os deliciosos textos de Eduardo Olímpio nos quais trabalho para uma estreia fizeram-me reviver um sem fim de pequenas situações e objectos que me apetece registar.

E este é um registo do tempo em que se entrava para a escola como um crente em profissão de fé.

Já não éramos obrigados a filiação na heróica Mocidade Portuguesa, mas claro que não havia pai que não soubesse o

Lá vamos cantando e rindo
Levados levados sim
Pela voz do som tremendo
Das tubas clamor sem fim

Lá vamos que o sonho é lindo
Torres e torres erguendo
Clarões, clareiras abrindo
Alva de luz imortal
Que roxas névoas despedaçam
Doiram os céus de Portugal

De qualquer modo, a figurinha, lá estava, a compor o ramalhete ornamental do DIPLOMA da 4ª classe.

Um Diploma em papel de marca - e não como esses de agora, simplexes, fininhos, palidos, tristes de se ver. Um Diploma para ser emoldurado - a merecer o Relógio Cauny, que é prémio para uma vida que se quer com horas certas.

Hoje mesmo, em trabalho de cena, partilhei com jovens actores que sempre era verdade que existiam, como prática corrente, na escola:

- reguadas
- ponteiradas
- castigo no cantinho, geralmente ao pé do quadro, para toda a gente desfrutar - com ou sem o pé levantado
- orelhas de burro para nos irmos pôr à janela, qual carochinha esperançada na sua libertação de ratoeira.

Um deles - o mais jovem, rebolava-se de tanto rir. Não acreditava.

Pensando bem, nem eu. As memórias parecem saídas da fantasia de um Lewis Carrol.

Mas não se pense que esta pedagogia punitiva não resultava. Como nos conta Fer. Ribeiro in A Escola do Caneiro:

"... é que eu ainda sou do tempo em que os rapazes ficavam para um lado e as raparigas para o outro e em que uma ida ao muro de separação e uma conversa proíbida com uma rapariga dava direito a meia dúzia de reguadas, com aquela régua de madeira que o professor Lareno guardava na gaveta e tinha cinco buraquinhos geometricamente distribuídos, com 6cm de diâmetro, 1,5cm de espessura e 25 cm de cabo – Recordo-lhe as medidas e o medo que a ela tinha.

Recordo dessa escola também e, nunca mais esquecerei a tabuada cantada e que 6x8=48, porque graças a esta operação matemática levei 48 reguadas, para nunca mais esquecer.(...)"

Pois. Essa reguínha, ó Ribeiro, tinha um nome: menina dos cinco olhinhos.
Mimosa.

Este é também um tempo onde as questões de género nem se colocam.

Aliás, dois anos depois da emissão deste Diploma, as autoras das Novas Cartas Portuguesas seriam arroladas num processo judicial por atentado ao pudor público. Claro... como ousariam Três Marias serem tão libertárias? Ainda se fossem homens... mas só mesmo se fossem Agá Que É Agá (Homem que é Homem, na expressão de Luís Veríssimo) a coisa passaria...

Não, assim não. Éme Que É Éme nesta altura, é um pouco mais que o canito lá de casa. Sempre lava os pratos sem ser com a língua.

Foi assim que eu, Gisela, Filho de... de Pai - que a Mãe deve ter sido uma incubadora industrial - fui APROVADO, em atestado a que o senhor Director do Distrito Escolar se deu ao trabalho de validar - juntamente com as outras centenas de diplomas do distrito.

Rápida, barata e indolor - a mudança de sexo.

Ai... parece que as palavras, afinal, sempre importam... e pensar que ainda hoje ouço muito boa e informada gente falar em mas isso são extremismos... ou não quero cair em extremismos... quando tentamos fazer reparar nas desigualdades que subsistem - mais ou menos encapotadas com doces cosméticas ou simplesmente porque são, hmmm... menosprezadas, como... petites choses sans importance???... (trad: coisas que parecem não importar, que toda a gente sabe que importa, mas que se insiste, para manter a mansidão bovina do stablishment, em fazer de conta que não importa).

Uf!...
- Diploma emoldurado... merece ser pendurado!

(mas aonde?... aonde?...)

1 comentários:

Laura disse...

Bom dia, o texto tá muito giro, mas reparei numa falhinha:

É a filhA que diz sempre que "isso era no teu tempo" :P, por isso é favor mudar :P


Beijos Laura