Domingo, Novembro 18, 2007

oratória

Beja assistiu hoje a um acontecimento extraordinário: a execução da Oratória Fátima - Sinal de Esperança para a Humanidade - da autoria dos Padres António Aparício (letra) e de António Cartageno (música) .

Extraordinário dada a dimensão da concentração de vontades para reunir em cena, e em Beja, um conjunto de mais de três centenas de intérpretes - entre coros (11) - femininos, masculinos e infantil - solistas, e orquestra (Filarmonia das Beiras).

A inadequação de um espaço como o Pavilhão Municipal de Feiras e Exposições para a apresentação de um evento deste cariz acabou por ser suplantada pela eficiência colocada na preparação do espaço pela organização. As muitas centenas de pessoas que acorreram ao pavilhão (um milhar?...) e que, atentamente, acompanharam a mais de uma hora que durou a sua execução acabaram por forrá-lo do aconchego que a audição de uma obra destas exige.


António Cartageno é um reconhecido compositor e investigador de música sacra e litúrgica, autor de duas Cantatas - Nossa Senhora, Padroeira de Portugal (1996) e Santo Agostinho, o cantor da sede de Deus (2004) - que desenvolve quer a actividade de formação, em Música, quer o ofício de sacerdote, em Beja. A sua actividade é, portanto, bem conhecida em Beja - e a deslocação de muitas das pessoas hoje, para ouvir esta Oratória, prende-se - para além do credo ou da religião - com o reconhecimento do seu trabalho.

Dividida em quatro partes - 1.Pórtico, 2. A Senhora mais brilhante do que o Sol, 3. O Segredo de Fátima, 4. Fátima, Sinal de Esperança para a Humanidade - Cartageno faz uso de todos os recursos dramáticos que tem ao seu alcance para traduzir situações e emoções através da música - desde os solos pastorais do clarinete, da flauta ou do oboé à violência dos tímpanos - para referir alguns efeitos descritivos da paisagem natural - às inferências sobre a actuação humana e divina - desde o recitativo aos diálogos cantados, desde as Fugas dos Coros, aos Hinos, à apoteose da Aleluia final. A Oratória cumpre assim o seu destino de grande empatia com o público - e não dúvido que entrou na História do Culto Mariano.

Nesta apresentação - a 5ª apresentação pública, incluídas as apresentações no recente templo de Fátima, a Igreja da Santíssima Trindade - penso ser de toda a justiça sublinhar o trabalho de Direcção Coral - para que tantos Coros cantassem, como foi ouvido, a uma só voz.

Nos solistas, realço a prestação de Angela Silva* em Nossa Senhora, numa poderosíssima interpretação dramática e musical.
Em relação ao texto, algumas considerações: se, por um lado, foi opção - ou do Padre António Aparício, ou do conceito subjacente à criação da obra - a transcrição ipsis verbi de frases ou textos que constam nas Memórias da Irmã Lúcia - e, portanto, imaginemos a criatividade que será necessária para musicar este texto:

"A Rússia espalhará os seus erros pelo mundo
e promoverá guerras e perseguições à Igreja:
milhões serão martirizados,
O santo Padre tem muito que sofrer,
Várias nações serão aniquiladas"**

... por outro, quando liberto das transcrições, nos surge "pavor" a rimar com "horror"... ou

"Na primeira criação
qual promessa divinal
aparece uma mulher,
garantia de vitória
no combate contra o mal,
aparece uma mulher:
Maria, Mãe de Jesus."

... perguntamo-nos se Nossa Senhora não mereceria um pouco mais... de poesia?...


*dispensável o manto branco que a tenta "marcar" enquanto personagem - assim como as crianças solistas vestidas à pastorinhos, ou o Anjo de túnica imaculada - os figurinos não aportam aqui qualquer mais valia a uma obra que, cenicamente, vale pela presença impactante e pela pujança musical dos seus intérpretes.
** Memórias da Irmã Lúcia, 3ª Aparição de Nª Srª

Foto do Padre Cartageno: Canto Alentejano

3 comentários:

Zig disse...

Foi o culminar de muitos ensaios e o último de cinco concertos. Adorei participar nessa Oratória, mas também na obra anterior desse humilde e muito criativo Padre Cartageno, na Cantata de Santo Agostinho.

Estiveram 1200 pessoas na assistência, penso que se conseguiu encontrar um bom compromisso entre a importância que essa obra tem e a limitação do espaço. O que pouca gente sabia antes do concerto é que a acústica não foi mau de todo, já que as paredes dessa sala não são de pedra o que faz absorver o som. Necessita, no entanto, uma boa amplificação do som (também contribui um pouco nessa parte técnica, ontem, até às 4 e meia de madrugada, a fazer cabos...), e penso que o meu amigo Fernando o conseguiu!

Também gostei muito da voz da “Nossa Senhora”, é uma rapariga muito talentosa. Confesso que me emocionei quando ouvi a “nossa” Jacinta, já que em Fátima a voz dela tinha falhado! Sobre o texto, enfim, é discutível.

Este acontecimento merecia um maior destaque no meu blog, já que é lido por muita gente que participara nessa Oratória. Mas hoje estou “de aceites”, pode ser que daqui a dias retomo o tema!

Obrigado por terem assistido ao concerto e pelas palavras no fim do mesmo!

Zig disse...

"com os aceites" e não de. Fica aqui a rectificação do tipo com a mania do "Bom Português"

gisela cañamero disse...

de "aceites" à espanhola, decerto!...