Sábado, Agosto 16, 2008

estórias com música: take five

XTÓRIAS foi um dos espectáculos que mais sessões de apresentação pública teve, no âmbito das criações da arte pública (71 sessões).

construído com o cruzamento de contos da tradição oral dos macondes de Moçambique com as do Alentejo, tinha ensaiado uma primeira versão em 1997, com assinalável sucesso.

em 2001, após decisão de remontagem em moldes diferentes, encenadora, cenógrafo e sonoplasta viajam até Moçambique, para, entre outros objectivos, seleccionar actores em Maputo, aferir do estado dos míticos contadores macondes no seu meio e, com eles, realizar gravações vídeo e audio, e, por fim, conhecer o estado da criação artística, sobretudo performativa, na Beira.

as novas XTÓRIAS estrearam em Beja - numa encenação que continuaria a exigir uma vivência e transformação corporal permanente em cena, por parte dos três actores, onde me inclui.

na cena que remete para uma daquelas situações de chuva intensa e súbita que vivenciáramos na Pemba, entre contos que tecem a moral e os costumes de ambos os povos, eu tocava, no clarinete - pelo menos tão correctamente quanto o fôlego que me sobrava e as mãos suadas de tanta cabriolagem física anterior me deixavam - o Take Five.

Take Five - que podemos ouvir aqui no quarteto de Dave Brubeck - foi composto por Paul Desmond - primeiro, clarinetista e, depois, saxofonista - e fez com que o quarteto fosse campeão de vendas - na área do jazz! - com este singular tema, com uma divisão rítmica atípica, de 5 tempos, em 1959.

mas como vem este extraordinário tema incluir a montagem de XTÓRIAS?

já não me recordo se terá sido na noite de 21 ou de 22 de Fevereiro de 2001: no meio de uma Maputo com bastante desolação, onde, de manhã, me cruzara com crianças na sua alegre marcha para a escola na esperança de venderem um cabide ou um sabão, e, à noite, mulheres sozinhas ateando fogueiras em plena via pública na perspectiva de uma noite mais acolhedora, um bar de portas abertas e fervilhante de juventude, fazia silêncio para o que se iria ouvir.

ainda hoje lamento não ter sabido quem tocou, nessa noite, ao trompete (!...) - perante uma pequena multidão apinhada e muda - uma impressionante interpretação de Take Five que o próprio Paul Desmond não desdenharia.




foto:
Raja Omar Raja, Gisela Cañamero e Clemente Tsamba
em XTÓRIAS

arte pública, 2001

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