Sexta-feira, Agosto 15, 2008

o quinze de agosto.

o prognóstico era claro, reservadíssimo.
a tosse. a magreza. os pulmões. o cancro.
fumara sempre - numa época em que o gesto era sinónimo de se pertencer ao estado adulto.

a família mais próxima decidimos não deixá-lo tão longe - entre o hospital de S. João e a sua casa em Gaia.
em nossa casa, as crianças deveriam acompanhar a doença do avô - que passsaria a ser acompanhado pelo hospital de Beja.

e há sempre... a esperança. talvez seja possível controlar. será possível regredir?
há mesmo quem possa afirmar quantos meses, semanas, quantos dias lhe (nos) restam?

fomos buscar o Mário ao Porto naquele oito de Novembro de 2002.
a nove, parecia bem disposto; apesar da expectoração, conseguiu estar acordado até tarde - eram 22.00h e ainda assistia a um jogo na TV.
a treze, não foi possível a consulta - já marcada - no hospital de Beja.
a quinze, de manhã, a consulta. à tarde já fazia a primeira sessão de quimioterapia.

eu desconhecia - desconhecíamos todos - o choque tremendo que aquela sessão representava, no organismo: uma invasão com sequelas imediatas - o mal estar geral, os enjôos, a vontade de vomitar, as fortes dores de cabeça.

é numa inquietante ansiedade que se buscam respostas: numa fase em que o paciente se encontra tão fragilizado - quando já não se desloca, sequer, pelo seu próprio pé - seria adequado, necessário, aquela terapêutica violentíssima? que sim - reafirma o médico.
e, no entanto. olhando para a agonia do Mário, não fiquei convencida de o levar a segunda sessão, marcada para uma semana depois. um dilema - entre a consciência, a intuição mais profunda - e aquilo que, aparentemente, nos dizem ser o melhor a fazer.

não foi preciso escolher.

as crises de falta de ar. as garrafas de oxigénio. as dores. os pensos de morfina. as conversas. as alucinações. os momentos de clareza. as dúvidas, a revolta, o entendimento.

as mãos na mão. a vígilia dos que escolherem percorrer, a seu lado, a via dolorosa.

numa avalanche, a doença tomava-lhe o corpo.

o Mário deixou-nos, naquele mês de Novembro, na primeira hora do dia 21.

mas é a 15 de Agosto que celebramos a memória que dele retemos:

- o "mais lindo", como jocosamente se referia a si próprio, ria , com os olhos de um garoto, por saber que, no dia do seu aniversário, se tinha decretado feriado nacional.

e nós, ríamos com ele.


1 comentários:

Zig disse...

Ele certamente que vos observa no lugar onde está agora...

Curiosamente, o meu pai faz anos a 14 de Agosto. Há 6 anos sofreu um AVC muito violento, conseguiu superá-lo e agora está quase a 100%. Foi uma recuperação notável, considerado por muitos um milágre!