e começar o dia amparando quem não quer ser amparado, que se sente com forças mesmo se deve ser restringido a uma imobilidade forçada, cumprimentar quem atrás do balcão todos os dias se apresenta na sua impecabilidade intocável, o fato a gravata o sorriso afável, não forçado - uns heróis, estes homens e mulheres que gerem as malhas que a banca tece, nem consigo imaginar vida mais sacrificada - seguir para a primeira dose de cafeína matinal, ter vontade de interromper uma jovem avó - sim, as mulheres maduras conservam ainda de lado esta hipótese, esta cápsula de rejuvenescimento instantâneo, mas só com o netinho ao lado - queria partilhar com ela uns conhecimentos recém adquiridos sobre educação infantil, dizer-lhe que não tem de se esforçar em explicar ao pirralho de quatro anitos que irrompe numa birra gritada o porquê de ter partido o mil-folhas em três, se não o queres comer agora não comas a mim que me importa - era o que ela deveria ter dito, eu balbuciei a frase no ar ela não apanhou, continuou a explicar à bizarria imberbe o porquê do açucar o porquê da mastigação o porquê do porquê, a criar mais um futuro monstrinho cheio de direitos e poucos ou nenhuns deveres - retomar o passeio empedrado e deparar com duas meninas que me pareceram antigas tão antigas apenas por usarem trancinhas e bibes - como aqueles que toda a gente usava no tempo em que não havia pronto-a-vestir a ida à modista era um momento de terror das alfinetadas e o bibe protegia a roupa das brincadeiras, democratizava a rapaziada, que não se sentia, como agora, obrigada a mostrar que compra a marca x ou que prefere a marca z, e que pode fazê-lo - e que se não pode, rouba ou assalta o colega - um cão cruza a rua é um cão abandonado qualquer pessoa consegue ler o olhar de um cão perdido, abandonado, é um olhar de insegurança de incompreensão - assim como o de uma criança assustada, a diferença é nenhuma - é preciso tirar estas crianças da rua, um jovem adolescente leva pela mão um avô de olhar meio perdido, e eis que o jovem, este jovem, não vai com pressa para sítio algum não puxa o velhote não o empurra para o tempo veloz que consome também os afectos, o jovem não se distrai com nada mais, não usa telemóvel sequer e sobretudo não brande qualquer trejeito de impaciência de má-vontade. o jovem sorri. leva na mão o avô titubeante nos seus passos gastos, e no olhar um mar de esperança do tamanho do mundo.
Segunda-feira, Julho 13, 2009
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