andar, andei
não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento à minha idade
(...)
in A Carne seca é servida, Torquato Neto, 2008
... os vindouros toldos para a baixa da cidade, a descaracterização do património construído e das actividades profissionais, o abandono à doença e morte das árvores - dão a tal sombra, ainda por cima fresca, mas caem-lhes as folhas, que trabalheira - a desolação e perigo em que se transformaram as duas matas, o kitch em que resultou a pretensão da conjugação de materiais com que foram feitas as acções de «qualificação» da Praça da República, a fealdade e desnecessidade, como se tem vindo a comprovar, de parques subterrâneos - alguns nem tão subterrâneos assim - o esvaziamento humano e intelectual, a fuga dos jovens e dos que não são tão jovens assim, as casas fechadas, tristes e abandonadas - tantas à venda mas ninguém as compra - os cursos sem alunos, as ferrovias sem trem, aeroporto sem voos, um Alqueva a aguardar todas as especulações imobiliárias, um edifício dedicado a Cristo onde as pinturas exteriores valem mais que toda a vida contida nos muitos ninhos de andorinhas que celebravam alguma vida nesta triste urbe, e que foram, tão simplesmente, aniquilados, as gentes de rosto sombrio, as pernas cansadas, carregando tanto «merecimento».
foto:
João Vasco em Fábulas Fabulosas
prod arte pública, 2010

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